Desde a infância, o Dr. Marcelo Henrique Silva demonstrou interesse pela leitura. Contar histórias e criar realidades era uma característica marcante de sua personalidade na juventude. Seu pai, Marcelo, jornalista apaixonado por colecionar publicações de diversos gêneros literários, foi uma grande fonte de incentivo. Ao ingressar no Colégio Tiradentes, na cidade de Passos (MG), sua paixão pela literatura aumentou consideravelmente. “Lá havia uma biblioteca inteira à minha disposição, algo que me deslumbrou profundamente. Poder ler o que eu quisesse a qualquer momento me deu uma liberdade que me fez olhar para a literatura com os olhos de menino”, enfatiza.
Ao longo de seu percurso, teve contato com a obra de autores mineiros renomados, como Lúcio Cardoso, Autran Dourado, Guimarães Rosa (seu ídolo) e Carolina Maria de Jesus. Inspirou-se também em Caio Fernando Abreu, Lygia Fagundes Telles e em muitos nomes contemporâneos, como Adriana Lisboa, Andrea Delfuego e Silviano Santiago.
Depois de concluir a graduação em Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora, ele mudou-se para Belo Horizonte em 2020, para cursar Residência em Radiologia e Diagnóstico de imagem no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais. “Na terceira semana de curso, a capital mineira adotou medidas rígidas de restrição e isolamento social, e fomos ‘convocados’ para atuar na linha de frente da covid-19 em unidades de urgência e emergência”, relata o Dr. Marcelo Silva.
Entre viagens e períodos de folgas nas escalas de plantões, ele começou a traçar as linhas do livro Sangue Neon, usando tablets, celular e blocos de anotações. De acordo com o Dr. Marcelo Silva, o livro de estreia foi um romance, escrito de maneira fragmentada e amadora, já que nunca havia participado de oficinas literárias ou de cursos de preparação de textos. O seu processo criativo envolveu escrever um grande volume de textos, intercalado por meses sem nada produzir. “Foi uma escrita errática, e muito incômoda, por que eu não tinha certeza da qualidade literária do material que estava produzindo”, admite.
Dessa forma surgiu o livro Sangue Neon, que conquistou o Prêmio Jabuti, no Eixo Literatura, Escritor Estreante em Romance 2025. “Conquistar um prêmio desses vai muito além de mim. Representa uma conquista para minha cidade, para minha classe, para a comunidade LGBT+. É algo maior que eu. Sinto-me privilegiado e tenho a impressão de que tudo aconteceu no momento certo”, disse o escritor.
O reconhecimento lhe deu mais autoconfiança e ajudou a combater o fantasma da “síndrome de impostor”, que insiste em assombrar os jovens escritores. Grosso modo, segundo a literatura, a “síndrome do impostor” ocorre quando uma pessoa passa a duvidar de sua própria capacidade, achando que o sucesso é mera questão de sorte.
Para ele, há uma conexão entre a literatura e a Medicina. “Em ambos lidamos com material humano. No hospital, sinto como se tudo estivesse à flor da pele, como se o corpo e as emoções gritassem mais alto. Talvez seja por isso que o corpo protagoniza minhas histórias”, explica o Dr. Marcelo. Em seu novo livro, intitulado “Só fumo quando bebo”, há um caso específico de um idoso internado com episódios de delirium (confusão mental), que inspirou o protagonista do primeiro conto da nova obra, que foi publicada em 2026. Trata-se de uma coletânea de dez contos curtos.
Para os médicos jovens interessados em literatura, ele aconselha a não sentir vergonha. “Percebo que muitos médicos artistas escondem de seus colegas suas outras vocações. Sinto que, se a gente assumisse mais sensibilidades, teríamos muito mais a crescer como pessoas. Escrever não é dom, é habilidade. Pode ser aprendida, aperfeiçoada. E, acima de tudo, o que a gente precisa é enxergar para além de nós mesmos”, realça o jovem médico escritor, que diz que a literatura contribuiu para torná-lo um médico melhor.

PERFIL
Nome: Marcelo Henrique Silva
Local de Nascimento: Passos (MG)
Número do CRM-MG: 74.965
Formação: Graduação UFJF/ Residência Médica UFMG
Especialidade: Radiologia e Diagnóstico por imagem.
Um Livro: Lavoura Arcaica (Raduan Nassar)
Um Filme: Bastardos Inglórios (Direção: Quentin Tarantino – 2009).
Uma Música: Wind of Change (Scorpions – 1990)
Um Ídolo: Guimarães Rosa
Um Prato típico: Feijão Tropeiro
Um Hobby: Videogame
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