O cardiologista Dr. Odilon Cariglio, um dos autores e editores, apresenta o livro “Princípios da Religiosidade e Espiritualidade na Medicina – Enfoque na Prática Cardiovascular”, da Sociedade Mineira de Cardiologia (SMC)
Durante discussões científicas do Grupo de Estudo em Espiritualidade e Medicina Cardiovascular da Sociedade Mineira de Cardiologia (SMC) houve a proposta de elaboração de um livro que abordasse as evidências científicas atuais sobre a interação entre saúde, religiosidade, espiritualidade e medicina nos pacientes com doenças cardiovasculares. Com a aprovação da diretoria da SMC, que colaborou ativamente com o projeto, elaborou-se o livro “Princípios da Religiosidade e Espiritualidade na Medicina – Enfoque na Prática Cardiovascular”.

Entre os autores e editores, encontra-se o médico cardiologista Dr. Odilon Gariglio Alvarenga de Freitas. De acordo com ele, para a conclusão da obra em pouco tempo, houve um trabalho árduo e ininterrupto dos editores (Roni Arley Silva Duque; Glauco Franco Santana; Sônia Francisca de Souza; Luiz Guilherme Passaglia; Frederico Toledo Campo Dall’Orto; o próprio Odilon Gariglio Alvarenga de Freitas) e dos autores do livro (Glauco Franco Santana; José Carlos da Costa Zanon; José Maria Peixoto; José Resende de Castro Júnior; Marconi Gomes da Silva; Odilon Gariglio Alvarenga de Freitas; Roni Arley Silva Duque; Sônia Francisca de Souza).
Depois de seis meses, a obra foi publicada em português em julho de 2025, com distribuição gratuita, incorporando recursos de interatividade (links, vídeos, sites, etc.) e em diversos formatos: impresso (tiragem limitada); digital (formato pdf, acessível em diferentes dispositivos (computadores, tablets, smartphones) e audiobook. O conteúdo está disponível em: https://www.smc.org.br/institucional/gemca/. Devido à repercussão positiva do livro e reiteradas solicitações, foi elaborada uma segunda edição em inglês, com algumas atualizações: “Principles of Religiosity and Spirituality in Medicine – Focus on Cardiovascular Practice”. O lançamento ocorreu no dia 9 de outubro de 2026, durante o Congresso Mundial de Cardiologia 2026, no Rio de Janeiro.
“A evolução técnico-científica da medicina proporcionou avanços sem precedentes no diagnóstico, manejo terapêutico e aumento da expectativa de vida. No entanto, paradigmas como o mecanicismo e reducionismo, por vezes, levaram à negligência das dimensões culturais, psicossociais e espirituais dos pacientes. A inclusão da dimensão espiritual na prática médica não implica a conversão do ato médico em aconselhamento religioso”, diz o Dr. Odilon. Trata-se do reconhecimento, segundo ele, de que as crenças do paciente são fatores relevantes para a adesão terapêutica, enfrentamento (coping) de enfermidades crônicas e tomadas de decisão bioéticas complexas (como diretivas antecipadas de vontade).
Espiritualidade e Religiosidade não têm o mesmo significado. A espiritualidade pode ser definida como a busca pessoal por sentido, propósito, transcendência e conexão com o divino/sagrado, com a natureza, consigo mesmo ou com o outro. A Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia (2019) adotou o conceito de “um conjunto de valores morais, mentais e emocionais que norteiam pensamentos, comportamentos e atitudes nas circunstâncias da vida e de relacionamento intra e interpessoal”. Já a religiosidade refere-se ao quanto um indivíduo está envolvido e comprometido com suas crenças, práticas, rituais e códigos de conduta pertencentes a uma instituição ou sistema religioso organizado (religiosidade organizacional e não organizacional).

O médico cardiologista explica que a diferenciação entre espiritualidade e religiosidade não constitui mero rigor semântico, mas uma necessidade clínica e ética. Enquanto a religiosidade fornece estruturas sociais e doutrinárias que podem influenciar a conduta do paciente, a espiritualidade abarca a busca de sentido e o sofrimento existencial inerentes ao adoecimento. “O médico que compreende essa distinção evita julgamentos precipitados, aprimora a empatia, previne conflitos bioéticos e proporciona um cuidado centrado na pessoa, de forma biológica e humanamente integral”, esclarece o Dr. Gariglio.
O livro aborda estudos sobre a ligação entre espiritualidade e saúde cardiovascular com bases em evidências científicas consolidadas. A publicação revela que são essas evidências científicas atuais que permitem concluir que a espiritualidade está associada de forma consistente a melhores indicadores de saúde cardiovascular, menor incidência de hipertensão, melhor qualidade de vida e redução do risco relativo de mortalidade cardiometabólica. Os benefícios cardiovasculares são mediados pela combinação de vias neurobiológicas (regulação do sistema nervoso autônomo), inflamatórias, hormonais e comportamentais (menor prevalência de tabagismo e maior adesão terapêutica). As maiores limitações estão associadas à: heterogeneidade das métricas dos estudos e à falta de padronização nas ferramentas de avaliação. A maioria das pesquisas são observacionais, o que impede o estabelecimento de uma relação de causalidade direta absoluta nos moldes de medicações farmacológicas. “Na prática cardiologia clínica, recomenda-se a identificação dos recursos espirituais do paciente por meio da anamnese espiritual, utilizando esses valores para reforçar o autocuidado, sem a prescrição ou imposição de práticas religiosas pelo médico”, explica Dr. Gariglio.
De acordo com a publicação, diante de diagnósticos de alta gravidade e doenças ameaçadoras à vida, o modelo assistencial centrado estritamente na patologia física revela-se insuficiente para abarcar a complexidade do sofrimento humano. A investigação rigorosa e a validação das crenças, dos medos e das esperanças do paciente constituem pilares da abordagem espiritual e dos Cuidados Paliativos.

O acolhimento dessas dimensões subjetivas transforma a experiência do cuidado, fortalece a aliança terapêutica, otimiza a adesão aos esquemas terapêuticos, alivia a “dor total”, previne a distanásia e reduz a incidência de distúrbios psiquiátricos secundários. “Essa abordagem trata-se de um componente técnico e ético essencial para a boa prática clínica, resgatando a vocação humanística primordial dos médicos e em consonância com a bioética contemporânea”, explica o cardiologista.
Outro assunto de relevância do livro remete à “arte do cuidado pleno”, que não se opõe ao rigor científico, e se constitui em uma expressão refinada e humanizada do tratamento. Com isso, a escuta ativa, a empatia clínica e o reconhecimento da dimensão espiritual dos indivíduos expandem a capacidade diagnóstica e terapêutica do médico, resgatando a integralidade do modelo biopsicossocial-espiritual. “Quando exercida sob o amparo do rigor metodológico/científico e da estrita observância bioética, respeitando incondicionalmente a autonomia, a liberdade de crença e a laicidade da relação, permite que a medicina atinja o seu propósito hipocrático: “Curar quando possível; aliviar quando necessário; consolar sempre!”, pontua o Dr. Gariglio.
Para os colegas médicos, o Dr. Gariglio faz um aconselhamento. “Mantenham a esperança e a convicção de que, enquanto formos médicos de ‘bom coração’, pautados pela ética, respeito, ciência, retidão e humanidade, cumpriremos nossa vocação primordial: cuidar da saúde da população. Nunca se esqueçam de que tempo é vida; portanto, que cada minuto seja investido em ações dotadas de sentido e valor”, conclui.
PERFIL
Nome: Dr. Odilon Gariglio Alvarenga de Freitas
Local de Nascimento: Governador Valadares / Minas Gerais
Número do CRM-MG: 31.237
Formação: Médico (Graduação: Universidade Federal de Minas Gerais; Ano: 1997); com doutorado em medicina/biomedicina pela Santa Casa de Belo Horizonte.
Especialidade: Cardiologia (RQE N: 8434) e área de atuação de Ergometria (RQE N: 24110)
Um Livro: Fundação (Foundation) – Isaac Asimov.
Um Filme: Blade Runner (no Brasil: Blade Runner – O Caçador de Androides). Ano: 1982. Direção: Ridley Scott.
Uma Música: La Belle de Jour. Composta e interpretada por Alceu Valença (Ano: 1992. Álbum Sete Desejos).
Um Ídolo: Dorita Gariglio de Freitas (in memoriam), minha amada mãe, uma professora e advogada dedicada, determinada e gentil, que me ensinou o valor do trabalho e a importância da esperança e da gratidão.
Um Prato típico: Pão de queijo. Uma iguaria tradicional e histórica da nossa culinária que une o polvilho, um produto genuinamente brasileiro, ao queijo curado mineiro.
Um Hobby: Pintura e leitura.
(*) Imagens pertencentes ao arquivo pessoal do Dr. Odilon Gariglio Alvarenga de Freitas.
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