
Os acidentes na infância podem causar sequelas graves que podem debilitar os pacientes por toda a sua vida. Confira dicas pare evitá-los neste artigo do Cons. Dr. José Nalon de Queiroz
Acidentes na infância
José Nalon de Queiroz – Conselheiro do CRM-MG
“Fique por perto; acidentes são evitáveis e a violência, prevenível.”
(Sociedade Brasileira de Pediatria)
Como qualquer doença, em seu estudo epidemiológico há de se levar em consideração a vulnerabilidade da criança, decorrente de múltiplos fatores, particularmente a evolução psicomotora consequente à idade que atravessa, sendo fator determinante dos agentes causadores.
Dentre as características comportamentais da infância destacamos a baixa avaliação ou ausência do juízo crítico sobre os riscos ambientais ao longo da interatividade.
Da mesma forma, tal juízo crítico nem sempre é estabelecido pelos responsáveis/cuidadores no dever de zelar pelas crianças. A maior parte dos acidentes com crianças menores ocorre no ambiente doméstico/familiar ou proximidades. Em relação às maiores (adolescentes), os acidentes acontecem longe da moradia.
Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde) alguns fatores de risco podem ser considerados universais em relação ao acidente infantil. A pobreza contribui significativamente para acidentes como atropelamentos, queimaduras, afogamentos e lesões físicas em geral, devido às condições gerais desfavoráveis. A proporção na ocorrência de acidentes é de 2 por1 predominante no sexo masculino em todas as faixas etárias.
De acordo com a UNICEF, em seu relatório sobre mortalidade, 98% das mortes por trauma ocorrem nos países em desenvolvimento, sendo os principais fatores de risco: pobreza, mães solteiras e jovens, baixo nível de educação materna, habitações pobres, famílias numerosas, uso de álcool e drogas pelos pais.
Relacionando os tipos de acidentes com a idade e o desenvolvimento psicomotor da criança, temos que:
– O recém-nascido é dependente do adulto, completamente indefeso, não possui controle motor, não levanta a cabeça, passa a maior parte do tempo no berço ou carrinho. As principais situações de risco são quedas (colo, berço, trocador), queimaduras (água do banho, mamadeiras, cigarro), afogamento (banho), intoxicações (medicamentos), sufocação, engasgos, aspiração.
– O primeiro ano de vida caracteriza-se pelo desenvolvimento rápido: a criança senta com apoio, se vira rolando sobre si, leva tudo à boca, agita-se, engatinha, tenta se pôr de pé. Os principais riscos são, além dos mencionados anteriormente, aspiração, ingestão de pequenos objetos, introdução destes nos orifícios naturais (nariz e ouvidos), engasgos e choques elétricos.
– As crianças de um a três anos possuem grande energia motora, andam, correm, não se desviam de pequenos obstáculos, sobem e descem escadas, chutam bolas, pedalam triciclos, fogem pelas portas abertas esgueirando-se para os quintais ou áreas comuns nos prédios de apartamentos. Os acidentes mais frequentes e graves são: afogamentos (piscina, tanques, baldes), atropelamentos, picadas por animais peçonhentos, mordeduras de cães e gatos, traumas (quedas em escadas e janelas e colisões), queimaduras, além dos já citados anteriormente para as outras faixas etárias. Curioso lembrar que existem brinquedos ofertados às crianças que simulam animais peçonhentos (aranhas, escorpiões, cobras) como se nunca pudessem representar risco, por serem inertes. Entretanto, se encontrados na natureza vivos, serão apanhados pela curiosidade dos menores e manipulados sofrendo os danos consequentes.
– As crianças de três a sete anos querem fazer sempre o que desejam, mas com pequena capacidade de previsão de riscos. Estão sujeitas a acidentes de trânsito, ferimentos, traumas (bicicleta, patins), além de terem acesso a frascos de remédios ou produtos de limpeza doméstica mal-acondicionados (álcool, gasolina, querosene, água sanitária e outros) e expostos ao alcance dos menores.
– De sete a dez anos, as crianças apresentam comportamento que desafiam as regras preestabelecidas que visam à sua proteção (desobediências), suas habilidades estão aquém de sua análise crítica e, sem supervisão do adulto, tornam-se vítimas de atropelamentos no trânsito, quedas, ferimentos, agressões, impactos contra objetos.
– Os adolescentes de 10 a 14 anos descobrem a própria personalidade, possuem maior força física, sofrem influência de amigos e do ambiente, atuam sem pensar nas consequências, ficando expostos a traumas, contusões (esporte, trânsito), queimaduras, afogamentos, vícios (fumo, álcool, drogas).
PREVENÇÃO
Teríamos que muito nos estender para propor estratégias específicas para prevenir cada tipo de risco, entretanto é de dever fazê-lo de forma ampla e genérica, propondo antes de tudo a melhoria do acesso à educação e informações sobre o tema, investimentos em saneamento básico, oportunidade de trabalho e melhor remuneração, propiciando, assim, melhores condições de vida.
No ambiente familiar, devem os adultos responsáveis/cuidadores, atentar para as armadilhas” às quais estamos submetidos para o conforto e operacionalização das tarefas do cotidiano:
– Temperar adequadamente a água do banho e oferecer alimentos mornos;
– Não se afastar do “trocador” devido ao risco de quedas;
– Não deixar sozinha na banheira a criança menor que já fica sentada devido ao risco de afogamento;
– Afastar objetos pequenos das crianças pequenas pelo risco de serem engolidos ou aspirados;
– Posicionar adequadamente os recém-nascidos e lactentes durante e após as refeições.
– Manter os menores de dois anos longe do fogão e forno;
– Manter panelas em uso no fogão com os cabos virados para dentro;
– Proteger as tomadas elétricas;
– Manter portas fechadas e janelas com proteção de telas ou grades;
– Lonas sobre as piscinas ou cercas em seu entorno;
– Manter atualizadas as vacinas dos animais domésticos especialmente contra raiva;
– Manter limpos os quintais, evitando aglomerados de pedras e paus que são refúgio de animais peçonhentos (cobras, aranhas e escorpiões);
– Uso de bicicletas com equipamentos de segurança (capacetes, luvas, calçados adequados que não enrosquem na corrente);
– Usar equipamentos de segurança conforme a prática esportiva;
– Mãos dadas com os menores durante travessias das ruas;
– Nos veículos automotores (automóveis), crianças com menos de 30 kg ou 9 anos devem ficar no banco traseiro com cinto de segurança de 3 pontas. Maiores de 9 anos ou mais de 30 kg podem ser transportados na frente com cinto de segurança.
– Para menores de 8 anos usar as cadeirinhas de segurança no banco traseiro, respeitando as orientações de uso;
– Não permitir que pessoas não habilitadas (não treinadas) assumam condutas intempestivas que podem mais prejudicar do que ajudar.
– Recorrer aos SERVIÇOS DE URGÊNCIA/EMERGÊNCIA (UPA ou PRONTO- SOCORRO) mais próximos*
Ao se estudarem os acidentes na infância, os fatores de risco, as circunstâncias e o momento em que eles ocorrem, tem-se em mãos instrumentos importantes para as políticas a serem elaboradas, visando à redução de sua morbimortalidade.
O Pediatra necessita de muita ciência e arte para lidar com os fatores socioculturais determinantes de injúrias e de seu controle, devendo assumir seu papel na promoção da prevenção.
*CORPO DE BOMBEIROS – 193
SAMU – 192
CENTRO DE REFERÊNCIA DE TOXICOLOGIA DA UFMG – Hospital João XXIII (Av. Prof. Alfredo Balena, 400 – Centro, Belo Horizonte – MG). Telefone de Plantão 24h: 0800-722-6001 (Nacional) ou (31) 3239-9308
Publicado em